quinta-feira, 12 de maio de 2011

O português


Segundo nos conta o Diário Económico de 10 de Maio de 2011, a TAP vai cortar no número de elementos que compõem as tripulações de bordo nos aviões que passarão a contar com menos um elemento poupando a companhia 14 milhões de euros por ano. Aqui há uns anos li não sei bem onde, que a SAS (Sweden Air System), tinha poupado uma quantia parecida suprimindo uma azeitona na refeição que serviam a bordo dos seus aviões, claro da azeitona ao tripulante vai uma distância quanto mais não seja de dimensões…… Pelo que me tem sido dado observar, embora não seja um passageiro frequente (com grande pena minha, diga-se) das vezes que tenho viajado, as refeições a bordo têm vindo a diminuir de tamanho e qualidade ao longo do tempo, já não há azeitonas pelo que suponho que muito dinheiro se tem poupado, se adicionarmos o tripulante que vai deixar de existir, já a partir de Junho, às azeitonas grande deve ser a poupança que, se não servir para mais nada pelo menos ajuda a pagar os 42.000€ mensais que pagamos ao Sr. Fernando Pinto para gerir a nossa companhia de aviação a dar, em 2010, um prejuízo de alguns milhões de euros que, segundo o Jornal de Negócios tem a ver com o vulcão da Islândia, a subida do preço do petróleo e a empresa de assistência em terra, a Groudforce. Não tenho a intenção de “bater” no Sr. Fernando Pinto, pelo que vou lendo o homem tem feito um trabalho aceitável na companhia a aérea e até conseguiu reduzir perdas da TAP em 2008 de 285 milhões para 3,5 milhões em 2009, ao que parece um dos melhores anos de sempre da companhia. No site do Diário Económico há, logo abaixo da notícia um espaço para comentários dos leitores e nesta notícia muitos foram os que comentaram das mais diversas maneiras, desde: -“ x ferias por ano, viagens á borlix, hoteis de 5 *,4 ou 5 voos por mes com estadia de 4 ou mesmo 5 dias! há e podemos levar familia, amigos!!”, até: -“ Metade chegava e sobrava. Servem os tabuleiros a correr e passam os voos a descansar e na galhofa. Viajam em Executiva e gozam com quem paga bilhete. Nos intercontinentais desfrutam largos dias de férias entre voos, ao contrário dos das outras companhias que regressam no mesmo dia”, todos os comentários ao abrigo do anonimato obviamente, esta actividade tão querida aos portugueses que é dizer mal porque não tem, ou seja se eu não tenho acesso a uma mordomia nada como dizer mal sem saber porquê mas não tenho e pronto está errado, enfim é o povo que somos e nada a fazer. De vez em quando viajo na TAP há longos anos e se umas vezes corre muito bem outras corre menos bem, é assim mesmo (acho eu) em todo o lado.

Uma outra notícia que hoje ficamos a saber, desta vez pela Agência Lusa que a difundiu pelas televisões, foi o perdão da dívida da Guiné-Bissau pelo Clube de Paris no valor de 283 milhões de dólares, qualquer coisa por volta de 199 milhões de euros. A Guiné-Bissau há anos e anos que anda às voltas com um enorme tricot de problemas dos quais o tráfico de droga não será o menor deles, para além de um mosaico complicado de gentes com estruturas sociais, costumes e línguas diferentes (são por volta de 20 – vinte – etnias) papéis, balantas, biafadas, manjacos, mandingas, fulas, nalus, felupes e bijagós, são apenas algumas destas etnias que se acotovelam num pequeno território com pouco mais de 36.000 km2 em que cerca de 1/3 fica submerso na maré cheia, não é certamente coisa fácil de gerir e temos visto ao longo do tempo as guerras e a mortandade que ciclicamente por lá vêm ocorrendo, as últimas das quais as do Presidente João Bernardo Vieira (Nino) e do Chefe de Estado Maior das General das Forças Armadas, general Tagmé Na Waie, ao que parece graves discordâncias e rivalidades que remontariam ao tempo da Guerra do Ultramar (ou Guerra de África, ou como lhe queiram chamar) estariam na origem das mortes. Uma das situações mais complicadas que se viveu na Guiné-Bissau ocorreu em Agosto de 1998 com a revolta do Brigadeiro Ansumane Mane, também ele anteriormente Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas e demitido por Nino Vieira em Junho. Nino Vieira foi deposto como se sabe e no período de Agosto a Novembro viveu-se na Guiné-Bissau uma verdadeira guerra civil com a intervenção de tropas estrangeiras (Senegal) e um número indefinido de mortos, Ansumane Mane acabou por ser morto perto de Quinhamel em Novembro do mesmo ano de 1998 e Nino Vieira passado alguns anos regressou à presidência da Guiné. Como sempre acontece nas guerras há pessoas que fogem para paragens mais seguras muitas vezes sem nada, apenas com a vida. Neste cenário um barco português, salvo erro de nome Ponta de Sagres, encontrava-se atracado na Guiné na altura dos acontecimentos e tratou de zarpar para o largo o mais rápido que pôde, não sem antes recolher a bordo um grande número de refugiados (cerca de 1500 pessoas) que se amontoaram conforme puderam a bordo do navio tendo-se este dirigido a todo o vapor para o porto de Dakar, República do Senegal. Conheço muito bem a Guiné-Bissau, estive lá durante a guerra entre 1972 e 1974, depois nalgumas missões que a AMI desenvolveu no sector do Boé, mais propriamente em Lugadjole uma tabanca (aldeia) próxima da fronteira com a Guiné-Conakri. Talvez por isso o INEM, onde na época trabalhava, solicitou-me que coordenasse uma missão a Dakar para dar apoio aos refugiados da Guiné que estariam a chegar ao Senegal. O governo português disponibilizou aviões da Força Aérea (os habituais C-130) e algures por volta do mês de Setembro uma equipa formada por médicos e enfermeiros partiu com destino a Dakar, no entanto questões relacionadas com o plano de voo e respectivas autorizações, bem como atraso na chegada do barco a Dakar obrigou-nos a fazer escala por uns dias na ilha do Sal em Cabo Verde, o que a mim muito agradou já que ali nasci e brinquei nos bons tempos da pré-história, foram três dias óptimos descansados, de rever gente conhecida, de alguma lagosta e de boa conversa com os jornalistas que nos acompanhavam (um deles o Gomes Ferreira que hoje comenta assuntos económicos na SIC) e alguns banhos na praia de Santa Maria, de tão boa memória, começávamos mesmo a suspeitar que o trabalho da equipa se ia resumir a umas férias em Cabo Verde a banhos…. Mas, lá diz o povo não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe e depressa vieram as ordens de Lisboa, íamos mesmo para o Senegal, viagem sem história, num avião desconfortável e barulhento até Dakar, na época segundo os rankings a cidade mais cara do mundo, onde desembarcamos com um calor pegajoso e incómodo. Mesmo tratando-se de uma missão humanitária a polícia senegalesa cumpriu o seu papel e não prescindiu de nos fazer passar pela alfândega e pelo SEF lá do sítio o que pessoalmente me trouxe alguma ansiedade, o polícia da fronteira (um enorme negro impecavelmente fardado e chinelos havaianos nos pés) pegou no meu passaporte mirou e remirou, olhou para mim, voltou a olhar para o passaporte e sentenciou (traduzindo): -“Não pode entrar no Senegal, este passaporte não é seu”, esperava tudo menos aquilo, o passaporte não era meu?!?!?!?!?  –“Posso ver o passaporte por favor?”, sem me entregar o passaporte o polícia mostrou-me a fotografia: -“Não é você”, a fotografia mostrava um garboso rapaz de barba preta, numa daquelas lindas fotografias que a gente tem nos documentos, tiradas “à la minuta”, era eu indubitavelmente mas a barba já não era preta mas sim quase completamente branca. Como explicar àquele enorme africano que as barbas ficam brancas com os anos? Ao fim de alguma conversa e muito suor o homem, não muito confiante lá me entregou o passaporte com um “va t’en” entre dentes. O barco português afinal ainda não tinha atracado, estaria ao largo e”quase, quase a atracar” segundo o homem da embaixada que nos recebeu, pelo que nos levou a almoçar num restaurante algures no meio da cidade depois para a embaixada onde esperamos o quase, quase. Finalmente noite dentro o barco atracou e fomos transportados para o porto onde montanhas de gente entrava e saía do barco, sacos, malas, embrulhos, caixotes e todo uma série de embalagens de todos os tipos espalhavam-se pelo cais, gente que chorava, bebés que gritavam uma enorme confusão a que alguns militares senegaleses tentavam sem grande sucesso, dar alguma ordem. Nessa madrugada os refugiados foram transportados para o aeroporto de onde, viemos a saber depois, seriam transportados para Lisboa em aviões da TAP que o governo português providenciara. O local do aeroporto escolhido pelos senegaleses para alojar aquela multidão até que chegassem os aviões foi um pavilhão enorme que se destinava habitualmente a alojar os peregrinos muçulmanos se deslocam anualmente a Meca, uma enorme estrutura imponente ao lado do aeroporto que sem sombra de dúvida abrigaria o dobro das pessoas que para ali se dirigiam. Montamos um posto de socorros numa das várias salas e fomos então vendo e tratando muita daquela gente que, ainda sem acreditar muito bem no que lhes estava a acontecer, ansiosos, esfomeados, cansados procuravam apoio fosse onde fosse para ter algum alívio de tudo aquilo que ainda lhes parecia um sonho mau. Muitas crises hipertensivas, muita ansiedade, muita diarreia, enfim muita gente, chegar a todo o lado e atender toda a gente estava-se a revelar uma tarefa ciclópica e quase impossível. No meio desta confusão chegam finalmente os aviões da TAP, começamos a respirar de alívio, esticando o pescoço por cima da multidão, começamos a ver gente fardada de azul, cheios de dourados, hospedeiras de salto alto, o Sr. José Lello, na época Secretário de Estado das Comunidades se não me falha a memória, enfim já faltava pouco para regressar. No meio da catadupa de gente chega-me à sala onde tínhamos montado o posto de socorros um garboso tripulante muito bem fardado e sorridente que me cumprimenta: -“ Boa tarde. O senhor é o médico?”, entre um comprimido e um penso fui respondendo:
- Sim sou, posso ajuda-lo?

- Pois, é que tenho um problemazinho que talvez me pudesse ajudar a resolver
Mais uma espreitadela para os ouvidos de um miúdo, e a colocação de uma manga de tensão arterial

- Sim diga

- Eu sou o comandante (?) de um dos aviões da TAP que vem busca-los. Tenho dois filhos em casa, em Lisboa está bem de ver, com varicela e precisava de um atestado para a escola. O Sr. Doutor não me podia fazer esse favor?
Não sou capaz de descrever a quantidade de coisas que me passaram pela cabeça. O enfermeiro (o meu bom amigo Nelson) que me acompanhava quase desmaiou, a enfermeira lançou um olhar esquisito como se tivesse acabado de aterrar um OVNI e eu fiquei sem pinta de sangue. Que responder aquele tipo????? Mas a mãe natureza dá-nos forças onde a gente pensa que não tem e com uma calma que desconhecia ter respondi:

- Sabe aqui não tenho os papéis, mas quando chegarmos a Lisboa faça a o favor de me lembrar que eu vejo as crianças

Não voltei a ver o garboso comandante e até hoje não sei como se chamava mas que o homem tem um sentido de oportunidade único lá isso tem. Na altura fiquei a desejar-lhe que rapidamente viesse a ter vinte doenças graves e lentamente mortais, tudo ao mesmo tempo. Hoje, depois de todo este carnaval a que temos assistido, penso: - “ Que diabo o homem apenas se queria safar…”

terça-feira, 10 de maio de 2011

O jordano


Este fim de semana soubemos de um atentado à bomba em Baghdad com dezena e meia de mortos e mais de trinta feridos, mais uma bomba explode no Iraque, de tal maneira se vem tornado banal esta mortandade que quando a notícia nos é dada pelos telejornais já pouca gente vira a cabeça para ouvir. Gostava de perceber quando vai acabar esta coisa que o Sr. Bush iniciou em 2003 por causa das míticas armas de destruição maciça e, sobretudo gostava de saber como vai acabar. Algumas pessoas são capazes de se lembrar que isto não começou em 2003 mas sim em Agosto de 1990 quando o Iraque invadiu e ocupou o Kuwait num abrir e fechar de olhos e sem perguntar nada a ninguém, segundo o senhor Saddam Hussein porque o vizinho lhe andava a roubar o petróleo nas explorações que mantinha junto da fronteira no campo de Rumaila e de provocar a baixa do preço do petróleo ao produzir e vender mais que a cota estabelecida pela OPEP. Tanto quanto julgo saber a verdadeira razão teve a ver com uma dívida que o Iraque contraiu junto do Kuwait no valor de 80 mil milhões de dólares quando da guerra Irão-Iraque nos anos 80 (já vi várias versões desta quantia entre os 10 mil milhões e 80 milhões mas mais sobre esta última quantia) e de antigas reivindicações territoriais do Iraque sobre o Kuwait que remontavam aos anos 30 quando da independência do Iraque e das fronteiras desenhadas a régua e esquadro pelos britânicos intencionalmente limitando o acesso dos iraquianos ao mar para não ameaçar os interesses britânicos no Golfo Pérsico – tudo boa gente. A ONU com uma rapidez inaudita condenou a invasão e autorizou o uso da força para fazer retirar os iraquianos e em Janeiro de 1991 uma força comandada por um general americano de nome impronunciável, Norman Shwarzkopf invadiu o Kuwait e iniciou a Operação Tempestade no Deserto que terminou dois dias depois com a derrota do Iraque. Não, não vou comparar os 80 mil milhões do Sr. Saddam Hussein com os nossos 78 mil milhões emprestados sob a batuta da tríade das sandes de fiambre, podíamos realmente invadir a Finlândia que não queria entrar com a parte que lhe cabe das massas que aí vêm, mas aquilo por lá é frio que se farta além de longe como o caraças e não ia dar jeito nenhum, só por isso não advogo a invasão da Finlândia.

Voltando à Guerra do Golfo de 1991, a invasão deu-se em 1990 (Agosto) e em Setembro desse ano a AMI começou a preparar uma missão de emergência aos campos de refugiados que entretanto iam nascendo na fronteira Jordânia-Iraque. A AMI contactou vários médicos e enfermeiros para que dela fizessem parte, tendo o Fernando Nobre (esse mesmo) falado comigo para coordenar a missão. Partimos em Setembro num C-130 da Força Aérea, que estava integrado na colaboração que Portugal deu à coligação que combatia os iraquianos, via Cairo até Amman na Jordânia. No Cairo uma enorme confusão de autorizações de voo fez com que os egípcios nos pusessem a aguardar na placa do aeroporto sob um calor daqueles a sério horas infindas e depois de uma boa sauna e de uma atribulada soneca debaixo da asa do avião lá pudemos partir para o nosso destino final – Amman, na capital da jordana depois de um curto tempo alojados na casa que a AMI alugou para servir como base operacional e que curiosamente se tratava de um bloco de apartamentos que dava pelo romântico nome de Gôndola, partimos numa pequena coluna de jipes e camiões para a fronteira jordano-iraquiana. O destino era uma localidade chamada Ar Ruwayshid onde era suposto dar apoio com equipamento (medicamentos) ao hospital local e manter contactos com a estrutura de saúde que o Reino da Jordânia mantinha naquela localidade. A viagem até Ar Ruwayshid demorou horas infindas pelo meio de um deserto escaldante e algumas localidades dispersas, uma das quais Azraq que durante a I Guerra Mundial foi uma das bases do conhecido Thomas Edward Lawrence o famoso Lawrence da Arábia que se dedicava a dar conta do juízo aos turcos estourando-lhes os combóios. Finalmente a chegada ao destino, descarregaram-se os camiões com alguma ajuda de gente local mas sobretudo à custa dos nossos braços sob o olhar entre o desconfiado e curioso de alguns homens mais velhos que desfiavam uma espécie de terço na mão e iam comentando o desenrolar da operação. Seguiu-se o alojamento da equipa todos estávamos estafados e ia saber bem um banho e umas horas de sono pelo que nos dirigimos ao hotel da área, o Shatt Al-'Arab que se situava mesmo junto à fronteira, aí ficamos a saber que não se alugavam quartos mas sim camas pelo que ficamos numa enorme camarata no último andar com colchões dispostos no chão muito bem arrumadinhos e com um terraço magnífico com vista para o deserto e para a fronteira mesmo ali a uns 200 metros, nada mau, o chuveiro numa casota no terraço servia optimamente e depois do chuveiro uma boa soneca e esperar pelo próximo dia em que íamos iniciar a actividade no campo de refugiados. O campo de refugiados situava-se entre as fronteiras da Jordânia e do Iraque numa no man’s land entre arames farpados a uns bons trinta quilómetros do hotel, assim pela manhãzinha partimos em dois carros até ao campo Mercy atravessando a fronteira jordana e depois já próximo do campo um posto de controle onde soldados (?) barbudos com cara de poucos amigos nos lançavam olhares pouco tranquilizadores. Depois foi o campo, a montagem das tendas, a assistência aos refugiados que vinham aos magotes durante a noite empilhados em camionetas de passageiros até aquele campo e outros dois geridos pela Cruz Vermelha e pelos Médicos sem Fronteiras, era uma mistura de palestinianos, filipinos, cingaleses, bangladeshis, uma confusão de línguas e povos que tinham a sua vida no Kuwait servindo e trabalhando para o sheiks locais e de repente se viram encurralados pela invasão iraquiana optando por fugir, deslocando-se numa viagem de milhares de quilómetros. À noite novamente o regresso ao hotel  Shatt Al-'Arab, à cavaqueira com os vários jornalistas que nos acompanhavam, aos kebabs, e à nossa camarata que de dia para dia se tornava cada vez mais convidativa. E os dias iam decorrendo na mesma rotina hotel-campo de refugiados-hotel passando pelos soldados façanhudos do posto de controle a seguir à fronteira que todos os dias nos olhavam desconfiadamente, o que motivava comentários pouco tranquilizadores entre nós – “um destes dias estes tipos ainda nos fazem uma partida” e cada vez que se passava naquele local nós próprios nos encolhíamos instintivamente. Passamos dias e dias por ali até que, no regresso de um dia particularmente duro em que tivemos a chegada de quase mil refugiados, muitos em condições deploráveis com sequelas de acidentes durante a viagem, quando chegamos aos soldados no posto de controle um deles particularmente mal encarado, careca, com uma barba enorme emaranhada e suja levantou a mão segurando uma espingarda e pôs-se à frente do carro - “É agora” pensei eu. Juntamente com outro soldado deu a volta ao carro, espreitou para a parte de trás onde uma médica e uma enfermeira se encolhiam, abriu sem cerimónia o porta bagagens, mandou sair o condutor com quem trocou meia dúzia de palavras ininteligíveis e dirigiu-se a mim no banco da frente, sempre de arma em punho. Confesso que não foi das situações mais confortáveis da minha vida e já me via atirado para uma qualquer masmorra no deserto cercado de barbudos vestidos de djellabas, aqueles balandraus que se viam por todo o lado e armados até aos dentes. O homem debruçou-se na janela do carro olhou-me e diz num impecável inglês: - “Are you the doctor?”, eu meio a tremer “Yes”, diz o nosso homem (traduzindo): - “Meu Deus felizmente! Há vários dias que ando a pensar pedir-vos para parar mas não queria incomoda-los”. Não nos queria incomodar ??? Fiquei completamente confuso e tolhidinho da língua. – “Não nos queria incomodar como?”
Diz o barbudo soldado:
- Sim, sabemos o trabalho que estão a fazer. Mas eu tenho um problema para que precisava de pedir a sua ajuda
- Então o que se passa? – Começava a recompor-me do susto…
- É que tenho o cabelo todo a cair – meteu a careca na janela do carro – e queria ver se me podiam dar uma ajuda nisso
Entreolhei as minhas companheiras no carro sem saber muito bem o que fazer. O tipo era careca que nem um ovo e no meio de lado nenhum manda parar o carro para pedir remédio para a queda do cabelo??? Num daqueles repentes que às vezes nos dão nos apertos fiz o ar mais sério do mundo:
- Mas claro. Vamos já tratar disso.
Saí do carro, abri o porta bagagens onde tínhamos alguns medicamentos que nunca deixávamos no campo e comecei a pensar que raio ia eu dar ao careca barbudo. Remexi nas caixas e nada, soros, seringas, injectáveis, sistemas, pomadas. Pomadas ? Ora aí está pomadas! A caixa tinha variadíssimas pomadinhas desde anti alérgicos a analgésicos e, no meio daquilo uma pomada qualquer numa embalagem linda azul claro, nem mais, nada como uma pomadinha para fazer crescer o cabelo aos carecas.
- Aqui tem. Esfrega isto na cabeça de manhã é à noite durante duas semanas depois descansa mais duas e volta a aplicar. Vai resultar certamente.
O barbudo careca desfez-se em agradecimentos, fez uma continência impecável, mostrou a pomada aos companheiros disse qualquer coisa ao condutor e fez-nos sinal para seguirmos.
Durante mais uma semana passamos pelo posto de controle e tínhamos sempre direito a uma espalhafatosa continência dos soldados e sempre que o careca lá estava agitava no ar a bisnaga de pomada que eu, salvador dos carecas, lhe tinha dado.
Não sei o que o jordano pensa hoje de um sujeito, que num dia longínquo de 1990 lhe mandou besuntar a cabeça com pomada, no meio de lado nenhum no deserto de Ar Ruwayshid e vou ficar com uma eterna dúvida:
 – Será que o cabelo lhe voltou a crescer?

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O argentino


No fim de semana o inevitável Expresso (inevitável para mim que compro aquela sacada de papel religiosamente todas as semanas, ainda não entendi bem se por hábito se por gosto….), o inevitável Expresso, dizia eu, tinha os habituais artigos de opinião e a páginas tantas lá vinha mais um senhor a falar da crise e do FMI, falo de um pequeno artigo de opinião do senhor Henrique Monteiro, nada de novo no artigo a não ser que a certa altura fala brevemente da história da orquestra do Teatro Scala, de Milão onde Riccardo Muti que ali foi maestro durante 19 anos acabou por ser saneado (sic) em 2005, tendo sido substituído pelo maestro argentino Daniel Barenboim, tanto quanto julgo saber em Maio de 2006, não sei se se recordam mas este Barenboim em 1999 foi o co-fundador, juntamente com Edward Said, da orquestra West-Eastern Divan Orchestra que junta músicos do Egipto, Irão, Israel, Jordânia, Líbano, Palestina e Síria, na época muito falada pela comunicação social. O maestro nasceu em Buenos Aires em 1942 descendente de judeus russos, para quem, como se sabe, a vida não corria lá muito bem na mãe pátria sob a batuta de um simpático senhor que se chamava Joseph Stalin. Depois de ter dedicado uma grande parte da sua vida a reger orquestras um pouco por todo o mundo, de ser um executante de música brilhante e de ter sido director de várias orquestras na Europa e Estados Unidos, no início dos anos 90 encontra-se no lobby de um hotel de Londres com um intelectual e crítico literário, Edward Said, professor da Universidade da Columbia nos Estados Unidos e um apaixonado pela música clássica e também pela causa palestiniana tendo sido membro do Conselho Nacional Palestiniano, causa a que esteve ligado até à morte em 2003. Estes dois homens, um judeu (que possui as nacionalidades argentina, israelita e espanhola) e um palestiniano militante convicto conversam muito desde que se encontraram em Londres e, já no final dos anos 90 criam a já referida West-Eastern Divan Orchestra juntando jovens de diferentes nacionalidades e, aparentemente de campos políticos completamente opostos do Médio Oriente intencionalmente para passar a mensagem de que era possível a pessoas com pensamento muito diferente e até inimigos desenvolver, em conjunto uma actividade importante e de enorme qualidade. A West-Eastern Divan Orchestra tem dado concertos um pouco por todo o mundo sendo o mais mediático de que provavelmente todos se lembrarão o concerto de Ramallah em 2004.

Ora nós por cá dedicamo-nos a esta actividade da maledicência, da intriga e da inimizade figadal alegremente, esquecendo-nos do país e do povo de quem todos falam mas a quem dão uma importância no mínimo discutível. Um diz que com o outro nem pensar em trabalhar, o outro diz que aquele é um troca tintas, aparece um outro que só pensa nos pequenos agricultores, nas pensões e nas PME e beija criancinhas e peixeiras pelas feiras, outros contestam tudo e todos na sua intectualidade caviar, outros ainda continuam pendurados nas reminiscências de 1917, e ainda outros ocupam televisões de vassoura na mão. Fantástico! No fim disto tudo que diabo se vai passar? Será que podemos pedir ajuda ao Sr. Barenboim? É que escaldado como estou com as contas que periodicamente me vão apresentando começo a ficar preocupado com a factura que virá aí, já não chega a que aqueles senhores das sandes de fiambre nos apresentaram ainda vai aparecer a que os desentendimentos pessoais e tricas de comadres vão gerar.

O pequeno artigo do Sr. Henrique Medina no Expresso põe também a questão de, o Teatro Scala ao nomear um argentino para dirigir a sua orquestra resolveu um problema, nós temos o problema de não poder abrir um concurso internacional para primeiro-ministro. É pena. Cumprir do acordo firmado entre o governo de Portugal e a tríade de senhores simpáticos não vai ser pêra doce, a cada três meses cá estarão a ver se as continhas estão em a correr de forma a receberem as massas que benevolamente nos emprestaram e vai ser uma chatice colocar os boys à sorrelfa ou criar mais algum instituto público ou alto comissariado, sem dar nas vistas da dita tríade. Se abríssemos um concurso internacional provavelmente os concorrentes não seriam muitos (quem quer pegar nesta coisa?) mas alguns haveria e mais difícil seria ao clubismo partidário colonizar alguém que viria sabe o Criador de onde e que apenas teria de cumprir o que o programa de governo já elaborado estipula sem mais conversas, contratava-se o dito gestor por quatro anos (três para cumprir o acordo e mais um para deixar um trabalho asseado) e ao fim desse tempo ia à vida dele que aturar isto por mais de quatro anos não é tarefa fácil. Ao fim desse tempo talvez já tivéssemos algum juízo e respeito pelos outros e deixássemos de andar às cotoveladas aos vizinhos a ver se também nós nos safávamos. Mas então propõe-se que um estrangeiro venha gerir os destinos da nossa pátria?!?!?!?!? Que sacrilégio!!!!!!!!!!!!! Perdeu-se o orgulho de sermos a nação mais antiga da Europa e das mais antigas do mundo com mais de oito séculos de história??????  Então nós não somos os mais indicados para gerir os nossos próprios destinos e decidir o que queremos fazer das nossas vidas????  Não, não somos. Isso já ficou mais que provado até à saciedade.

domingo, 8 de maio de 2011

O romano


Sempre ouvi falar na história do general romano que, tendo sido colocado na Lusitânia ao fim de um tempo enviou para Roma um relatório sobre a forma como decorria a campanha que terminava com a mensagem: “- Para além dos Montes Hermínios encontrei um povo que não se governa nem se deixa governar.” Não sei se é verdade ou não ter existido a dita mensagem mas hoje enquanto ouvia mais um comentador de economia que novamente insistia no desgoverno do nosso pequeno canto, da oportunidade única de poder por as famosas contas em dia, do perigo real do não cumprimento do acordo com os nossos recentes visitantes que, em quinze dias fizeram um programa de governo que ao que parece se limitou a conter aquilo que o bom senso aconselhava e que nós próprios em trinta e tal anos não fomos capazes de fazer, ao ponto de durante esse espaço de tempo termos sido obrigados a chamar cá os mesmos senhores três vezes – é obra, sem dúvida! Claro que estes comentários vão tomando a tonalidade do senhor que comenta, carrega nas tintas, esborrata-as um pouco mais, dá-lhes uma tonalidade diáfana enfim aquilo a que a gente já se foi habituando vai-se vendendo o peixe pelo preço mais adequado no momento independentemente de o peixe ter vindo num carro de bois de Lutécia ou num barco frigorífico japonês, o que importa é vendê-lo. Seja como for alguma coisa deve haver, todos acabam por dizer que a coisa é difícil e que as nossas vidas vão levar um trambolhão daqueles a sério, depois a conversa varia de acordo com as tintas e uns cortam aqui, outros ali, uns aumentam além outros diminuem acolá, até parece que o importante é que fiquemos com a cabeça cheia de confusões. Mas à parte esta salada o que me parece é que realmente alguma coisa correu muito mal e alguém tratou de se por a gastar o meu rico dinheirinho à tripa forra e depois ainda me vem obrigar a pagar por isso – mais uma vez é obra! Não me apetece desfiar aqui um rosário de lamentações e especulações sobre o destino do dinheiro dos nossos impostos, acho que só um distraído (mas muito distraído mesmo) não se foi dando conta dos boys das mais diversas cores sentados à manjedoura do poder, das cedências inqualificáveis às corporações, do político profissional sem emprego definido, do desbaratar dos dinheiros de todos nós na caça ao voto com uma lógica única – a tomada do poder, já todos vimos este filme e, ou o clubismo tolda a vista ou já dificilmente nos conseguem surpreender.

Mas voltando ao assunto estava a ouvir o senhor economista e dei comigo a pensar na mensagem do romano que se embaralhou com os nossos antepassados. Realmente, quando naquelas conversas com os amigos se resolvem os problemas do país e do mundo à luz de uma bica fumegante alguém acaba por dizer que não, que isso não foi coisa de portugueses, os portugueses são uns pequenos vigaristas e carteiristas mas não se metem a grandes e perigosas “cavalarias”, como se fossemos lituanos a falar de Portugal ou seja falamos dos outros, dos nossos compatriotas sim mas não de nós próprios muito sérios ali à roda da mesa do café. Depois regressamos às nossas vidinhas e cada um à sua maneira faz o possível por se ir safando neste vale de lágrimas. Fugimos aos impostos, evitamos passar recibos, fanamos os lápis e as esferográficas nos empregos, tiramos fotocópias para os livros dos filhos no escritório, metemos baixa para ir fazer uma perninha no outro emprego, chegamos tarde ao trabalho – “lá dei a volta ao chefe” - e temos orgulho nisso, etc., etc., etc. Então porque é que toda a gente ficou tão escandalizada quando os senhores deputados faltaram à Assembleia da República para ir ver a bola ?  São tão lituanos como nós, são portugueses tal e qual, descendendentes do Viriato que punha a cabeça à roda ao romano. E foi assim que todos juntos tivemos de chamar os senhores do FMI cá nessas três vezes, em média de dez em dez anos temos de cravar alguém para continuarmos a poder viver como país – é obra! Mas reclamamos dos políticos que temos, indignados com a forma como vão gerindo a coisa pública, pois…… mas também eles descendem dos lusitanos e nada mais fazem do que se irem safando, porque raio é que a gente leva na pasta os clipes e uma resma de papel que arrecadou no escritório, pousa a dita na cadeira ao lado e desata a comentar sobre aquele tipo que esteve tão bem sentado lá no governo e agora anda às voltas com a justiça com um desviozinho de dinheiros e umas luvas que recebeu para facilitar a vida à empresa de um conhecido? Reclamamos porquê? Afinal para lá dos Montes Hermínios sempre há um povo que não se governa nem deixa governar, vai havendo quem se governe mas não o povo. Tiveram de vir uns senhores muito simpáticos que até comem sandes de fiambre no café logo ali ao pé do Ritz para nos dizer como é que esta coisa se faz, não sei se também mandaram alguma mensagem para Nova Iorque ou para Bruxelas mas para nós mandaram - ou temos vergonha na cara ou a coisa vai fiar fino, ou melhor fiar parece que vai mesmo, a questão é saber concretamente a espessura da agulha.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Hac Nobis

Pois realmente deu-me para começar um blog.
Confesso que não sei bem como isto funciona mas pareceu-me uma ideia interessante ir escrevendo e vendo quem comenta (se é que alguém vai comentar...) e o que dizem. Há o Facebook, claro que há, partilhamos algumas pequenas coisas, pequenos links, pequenos textos mas não é bem o género de coisa em que se escrevem idéias de forma corrida ou se comenta isto e aquilo, afinal nos dias que correm há tanta gente por aí a ganhar a vida com comentários de toda a ordem desde os políticos até aos economistas (a grande moda do momento) passando pelos insignes treinadores de bancada enfim, vamos ver o que acontece. Há muita gente vai seguindo os blogs e até há quem se dedique a comentar, nos meios de comunicação os ditos e respectivos textos então porque não inventar mais um ?
Hac nobis (Aqui para nós) foi o título que me pareceu mais interessante, além de que em latim fica muito mais in ... Volta e meia vou espreitar os blogger's e os textos que colocam e tenho encontrado de tudo desde blogs lamechas cheios de florzinhas (não sei se algum terá fotografias daquele menino com a lágrima no olho) e poemas lamentosos, os ditos mais sérios, como o 31 da Armada ou o Abrupto ou outros ainda com fotografias e descrições de viagens ou ainda alguns outros em que as pessoas pura e simplesmente vão escrevendo sobre coisas... É assim mesmo - coisas, das vidas, dos êxitos, dos fracassos, de tudo e mais alguma coisa. A moda será o Twiter, até a morte (?) do Sr. Bin Laden foi comentada em primeira mão no Twiter - Andam por aqui helicópteros a sobrevoar as nossas casas, disse um senhor paquitanês na hora do assalto dos SEALS da força especial e ultra secreta (diz a Visão) que entrou por ali dentro e terá "limpo o sarampo" ao homem. Ainda não me deu na cabeça desatar a twitar e tanto quanto sei aquela coisa dá para escrever 120 caracteres (ou 240...), não era bem essa a ideia mas, nunca digas desta água não beberei. Bom já está, vamos ver o que acontece agora. Como diria o outro, até lá façam o favor de ser felizes